Quem tem medo do escuro?
Ao ler este título neste blog que fala sobre o amor, você
deve estar questionando: o que tem uma coisa a ver com a outra?
Quando pensamos em estruturar o workoshop “O amor e suas
relações” baseando-nos em nossa experiência clínica e com grupos, o fizemos por
escolha de uma percepção imediata das questões trazidas à terapia, presente no
discurso sobre as formas de relacionamentos cada vez mais diversas
(relacionamentos abertos, virtuais, parceiros sexuais, ...) e não tão bem definidos
quanto os velhos conhecidos status de “casado”, “solteiro”, “separado”. Neste cenário de indefinição que permite que
tudo seja possível, amor e prazer seguem muitas vezes distintos, apesar do
desejo da união destes dois. A pergunta feita é: como conciliar amor e prazer
em uma relação estável e duradoura? O
problema geralmente ocorre nas díades “amor e estável” e “prazer e duradouro”.
Acredito que todos passamos em algum momento da vida em
que tivemos medo do escuro. Acontece principalmente na infância, quando ainda
precisamos que alguém nos dê segurança, geralmente pai, mãe ou irmão. Enfim,
quando em um quarto escuro, com medo, parece que os sentidos se multiplicam e
ouvimos mais, vemos mais e por isso, sentimos mais. O medo é capaz de criar monstros,
aumentar as coisas, as percepções. O
objetivo é nos proteger, porém na grande maioria das vezes, em seu exagero,
erra.
Crescemos e o medo continua em nós, faz parte do nosso
instinto de sobrevivência. Só que o escuro, o desconhecido, passa a ser outro....o
OUTRO. E quando se trata do Outro, todos sabemos que não há como saber. Muito
se diz por aí “coração do outro é terra que ninguém conhece”. Esta é a deixa
para o medo aparecer novamente. Não tem horóscopo, oráculo, runas ou pêndulos
capazes de nos apontar com certeza o futuro de uma relação, quem dirá então do
dia-a-dia, a disposição para suportar diferenças, a capacidade de superação, de
perdão, de não acumular ressentimento embaixo do tapete. Toda essa incerteza
associada às promessas de possibilidades que a liberdade oferece acabam levando
à novas formas de relacionamento com promessas de associar o bom e o
confortável. O “pega, mas não se apega”. Mas e o amor, onde fica? Qual o espaço
para ele nas relações? Como conciliar o sentimento e a forma de me relacionar?
Eu realmente estou me relacionando de forma coerente com o que eu desejo na
minha alma?
“Estou casada(o)
mas já não me reconheço, perdi minha identidade para viver um amor, um
relacionamento. Era preciso?Tinha que ser assim?” .
“Perdi minha
identidade porquê estou com várias pessoas e me sinto só, e nunca foi o que eu
quis, ficar ficando... queria alguém comigo”.
“Quero ter alguém que eu possa confiar, que seja
companheira(o), fiel, mas enquanto não acho a certa, me divirto com as erradas.”
Você já ouviu isso em algum lugar?
Você já disse isso?
Este workshop tem como objetivo o encontro com o desejo,
com o anseio que move cada pessoa de encontro, com encontros, ou para longe de
uma relação, sem pretensão de julgar qual a melhor forma de relacionamento ou
sugerir fórmulas para o amor. O amor, antes de ser uma relação, é único, de
cada um, possui uma identidade. Estar coerente com este sentimento, entendê-lo
melhor, esclarecer o contexto das relações atuais, conhecer e entender porquê
muito do que foi dito sobre ele permanece válido por séculos, e,
principalmente, vivenciando o amor por si mesmo , sozinho ou acompanhado.
Mariana Oliveira
Mariana Oliveira


